terça-feira, 7 de janeiro de 2014

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Um Natal, muitos natais…

A data do nascimento de Jesus Cristo é assinalada pelas crianças católicas e protestantes, por todos os miúdos cristãos e até hindus. Cumprem os rituais de acordo com a sua religião, enfeitam as casas de luz e cor, trocam prendas e constroem memórias em família - tudo coisas importantes para a formação da personalidade. O Natal é uma festa.

A noite de 24 de dezembro é celebrada com rigor pelos cinco irmãos da família Monteiro. Em casa dos avós paternos, entoam-se cânticos de Natal em redor da mesa, acende-se uma vela a simbolizar a luz e a chegada de Jesus e faz-se uma leitura em família de um texto do evangelho. À meia-noite, há a Missa do Galo na igreja católica da paróquia de Nova Oeiras. E o serão só termina já madrugada dentro, depois do avô distribuir os presentes guardados atrás do sofá e das brincadeiras e fotografias do costume.

“Quem traz a vela que simboliza que antes havia as trevas e depois chegou Jesus é a avó Celeste”, explica Leonor, de nove anos e olhos azuis expressivos, que é quem acaba por reavivar, a pouco e pouco, a memória dos irmãos. Sara tem um ano de idade e o João também só tem quatro. É Mariana, de seis anos, quem recorda as prendas que traz o Natal e alguns pormenores da consoada. O último cântico antes do jantar... «esse, já somos nós que escolhemos!», diz, deixando para o irmão Pedro, de oito, a tarefa de descrever a missa na igreja. «No fim, vamos todos dar um beijinho ao Jesus», lembra ele.

Com a ajuda dos pais, Raquel e André Monteiro, as peças vão encaixando e as descrições acabam por bater certo. É fácil para os mais pequenos escorregar nalgumas memórias. As festas começam dia 23 de Dezembro em casa dos avós maternos, com tios e primos, e só terminam a 26, com uma visita às tias que vivem nas Caldas da Rainha. O tio Manuel veste um barrete de Pai Natal no primeiro serão, em casa da avó não há árvore, o avô Cohen tem uma cadela... As festas são todas diferentes. Além disso, para os irmãos, o Natal é também a antecipação, incluindo atividades como preparar os enfeites, árvore e o presépio.

Viver o Natal
Antecipar a chegada do Natal com atividades realizadas em conjunto e cumprir ou recriar tradições religiosas e familiares é muito importante para o crescimento dos mais novos. «Estes são momentos de partilha, de relação, de afeto, e são o que de mais saudável pode existir na relação entre pais e filhos, pois funcionam como “alimento” para esta relação permitindo o reforço do simbolismo da quadra e não exclusivamente a parte mais comercial da época», explica o psicólogo Armando Afonso, do Centro de Psicologia Aplicada.

Católica praticante, a família Monteiro inicia a antecipação da celebração quatro semanas antes. «Começamos a montar o presépio no primeiro domingo do Advento. Pomos o musgo, fazemos os caminhos de areia e depois, com a ajuda do livro ‘À Espera do Natal’, todos os dias lemos um texto e vamos acrescentando o presépio», conta o pai. A estrela mostra-se no segundo dia, os sinos no dia cinco, os reis magos ao décimo e o menino Jesus só surge mesmo na noite de 24 de dezembro. «Todos os dias fazemos os reis magos andar mais um bocadinho. E no dia de Natal vimos todos ver se já lá está o menino Jesus», explicam os miúdos.

Os presentes dos pais, dados na manhã do dia 25, estão escondidos e obrigam a uma caça ao tesouro, feita com os padrinhos, convidados a participar. «O convívio com a família alargada (tios, primos, avós) é uma experiência muito importante para a identificação da criança a uma determinada dinâmica relacional que se estabelece à volta das memórias que as famílias possuem, permitindo vivenciar e apreender valores e princípios de conduta», lembra Armando Afonso.

Festividades como o Natal são normalmente, na opinião do especialista, «momentos marcantes no desenvolvimento psicológico dos mais pequenos», por assumirem um cariz emocional e relacional «que subsiste na memória ao longo da vida». No caso de famílias religiosas «esta partilha de experiências reveste-se de um simbolismo que ajuda a criar uma atmosfera especial, única, que se torna inesquecível e bastante influente no desenvolvimento infantil», acrescenta o psicólogo. E isto, independentemente da religião de que se fala.

Natais cristãos
Isabel Rute Reinaldo frequenta com o marido e os seis filhos a Igreja Evangélica Baptista de Linda-a-Velha. São protestantes e por isso, a cada Natal, a árvore enfeitada de luz e cor assume na sala o maior destaque. «O pinheiro, que não é caduco e está sempre verde, iluminado, significa a luz que Jesus dá», explica. Mas isso não quer dizer que não haja presépio lá em casa. Os miúdos já montaram um presépio de papel e já fizeram um outro de argila. A ideia do presépio «não é a de adorar as figuras - os evangélicos não veneram figuras - mas mais a de aproveitar a vertente didática do presépio», explica a mãe.

O propósito repete-se com os calendários do advento. Cada um dos seis irmãos - Timóteo, Tito, Rebeca, Eunice, Madalena, Pedro e Sara, que têm entre os dois e os 18 anos - tem o seu calendário. Comem um chocolate por dia, acompanhando o momento de uma pequena leitura ou cântico - e há sempre um calendário extra para uma visita que apareça.

«Não gosto muito daqueles chocolates», confessa Eunice, com 12 anos. No Natal, o que ela aprecia mesmo é enfeitar a árvore e a porta de casa, participar nos musicais encenados na igreja para a festa do domingo anterior, ouvir as leituras do evangelho partilhadas à volta da mesa, interpretar os cânticos com os irmãos e abrir as prendas com os avós.

Os presentes também são um dos pontos altos para a irmã Madalena, um ano mais nova - os que consegue comprar com a verba que lhe é dada pelos pais e os que recebe e guarda num saquinho com motivos da quadra costurado pela avó. Só que, para ela, o Natal também mais do que isso: «é um momento em que a família vai lá casa e nos divertimos todos muito», explica.

A falta da família alargada é uma das diferenças que Thimoteia, com 19 anos, aponta entre os natais de infância na Roménia, e os que agora vive em Portugal. Os pais, Pavel e Laurencia Tienescu, chegaram a Portugal em 2001 e a família mora na Bobadela com o irmão mais novo.

Teodosie tem oito anos e já está habituado a ver calhar o Natal num dia normal de escola. A família Tienescu pertence à igreja ortodoxa - segue o calendário Juliano, criado por Júlio César em 46 A.C. e não o gregoriano - que marca a sete de Janeiro a chegada do Messias. «Já expliquei à professora e, às vezes, fico em casa», conta.

O Natal não recebe um destaque por parte da igreja ortodoxa, que considera a Páscoa a comemoração mais importante. Mas é assinalado na noite de seis para sete de Janeiro com uma celebração - a que a família Tienescu assiste numa igreja de Benfica - e com momentos de convívio familiar que se prolongam pelo dia seguinte. «Preparamos um almoço de Natal e convidamos os cunhados ou alguns amigos», explica Pavel Tienescu. Na Roménia, o costume era os miúdos cantarem as janeiras de porta em porta na noite do dia seis, recebendo doces e guloseimas, e os adultos repetirem a folia pela madrugada seguinte, entre as casas da família e dos amigos.

Outros Natais
O Pai Natal chega para Teodosie a 6 de dezembro - é no Dia de São Nicolau que costuma pôr o sapatinho, receber as prendas e comer as guloseimas - e acredita que é por 7 de janeiro (no calendário gregoriano) que se deu o nascimento de Jesus. Mas ele participa nas festas da escola e tal como a irmã, se quer dar um presente a um amigo, fá-lo ainda em dezembro. Apesar de viver num país predominantemente católico – 85% dos portugueses seguem uma matriz católica segundo o último Censos - a discrepância de datas entre o seu Natal e os dos outros meninos não parece ser um problema para Teodosie.

Os pais podem ajudar os mais novos a compreender e respeitar as diferenças. A par de princípios como a sinceridade, a honestidade ou a lealdade, «a tolerância é, por si só, um princípio educacional, que se for explicado à criança, a tornará um ser mais compreensivo, sensato e que lhe permitirá enfrentar o mundo real de uma forma mais adequada», diz Armando Afonso. Como? Incentivando a ideia de «compreender antes de criticar, pensar antes de se expressar, esclarecendo que não há seres humanos perfeitos e que cada pessoa pode ter uma visão diferente das coisas, sem ter que ser criticada por isso», diz o especialista. «Cabe-lhe a ela aceitar outros pontos de vista e demonstrar os seus, permitindo sempre o diálogo aberto e a busca do crescimento enquanto pessoa».

As palavras do psicólogo podem ainda parecer complicadas a Auyshi Samji, que tem 10 anos. Só que a menina de ascendência indiana e religião hindu convive com uma realidade plural todos os dias. E é com naturalidade que explica ter dois natais - o Diwali e o Natal cristão - e comemorar ambos, com o mesmo entusiasmo. «Rezo nos dois deuses. Eu tenho a minha religião e o meu Deus é o Krishna. Mas Jesus é uma pessoa de bondade, que quer bem a toda a gente, é um Deus, e eu acredito nele... para mim Jesus Cristo e Krishna são a mesma coisa. Rezar a um ou a outro é a mesma coisa, desde que reze nalgum!», explica.

Os pais de Ayushi Samji nasceram em Moçambique, estudaram na Índia e vivem em Portugal há mais de 20 anos. Ashok e Angena frequentam o templo hindu do Lumiar com os filhos (Ayushi tem um irmão de 16 anos chamado Akash) e mantêm os hábitos religiosos. De manhã, acordam com uma oração ao sol, nunca começam a trabalhar ou a estudar sem uma palavra «a nosso senhor» - «que é a Natureza e o Amor» - «para que todo o trabalho seja justo, honrado e verdadeiro, que tudo seja positivo nesse dia». E é descalços e sentados no chão, «com a toda a humildade», que meditam frente aos altares do templo, onde deixam oferendas de frutos secos ou comida, como manda a tradição.

O Diwali, a festa da luz, que celebra a vitória do bem sobre o mal e da luz sobre as trevas, não tem data certa. Este ano calhou em outubro. «Gosto muito das danças do Diwali, fico no templo sempre até tarde nesse dia da festa e, às vezes, aparece lá um senhor com prendas», conta Ayush.

No dia 24 de dezembro, a noite de consoada da família Samji segue os preceitos cristãos. «Faço um belíssimo jantar, só que vegetariano, que nós somos contra a violência e não comemos animais», começa por explicar Angena. O resto é muito semelhante aos natais da maioria. Na sala, há uma árvore enfeitada pelos miúdos e um presépio feito a rigor, ora-se em família, Samji gosta de pôr o sapatinho para receber os presentes e não raras vezes a família vai a uma igreja católica assistir à missa já no Dia de Natal. «Faço tudo igual, só não como a hóstia», confirma Ayushi.

Prendas em excesso
Os miúdos pedem muito e as famílias dão demais. A queixa não será generalizada, em tempo de crise, mas é comum a muitos pais portugueses. “A materialização é um processo, infelizmente em crescimento, e que ganha contornos exagerados nesta”, comenta o psicólogo Armando Afonso. O excesso de presentes funciona por vezes como “mecanismo compensatório”, desculpabilizador da falta de tempo da sociedade. O psicólogo defende “poucos presentes, que tenham significado para a criança e sejam ajustados à sua idade e muita comunicação, compreensão e afeto, pois, são esses os pilares de um crescimento psicológico saudável”.

Referências bibliográficas:
  • Pais & Filhos. (2013). Um Natal, muitos Natais… Retirado dezembro 17, 2013, de http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-3-aos-5-anos/5713-um-natal-muitos-natais.
Zusana Matos Diaz (Educadora de Infância de Intervenção Precoce)»»»» 23/12/2013

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