Um Natal, muitos
natais…
A data do
nascimento de Jesus Cristo é assinalada pelas crianças católicas e
protestantes, por todos os miúdos cristãos e até hindus. Cumprem os rituais de
acordo com a sua religião, enfeitam as casas de luz e cor, trocam prendas e
constroem memórias em família - tudo coisas importantes para a formação da
personalidade. O Natal é uma festa.
A noite de 24 de dezembro é celebrada com rigor pelos
cinco irmãos da família Monteiro. Em casa dos avós paternos, entoam-se cânticos
de Natal em redor da mesa,
acende-se uma vela a simbolizar a luz e a chegada de Jesus e faz-se uma leitura em família de um texto do evangelho. À
meia-noite, há a Missa do Galo
na igreja católica da paróquia de Nova Oeiras. E o serão só termina já
madrugada dentro, depois do avô distribuir os presentes guardados atrás do sofá e das brincadeiras e fotografias do costume.
“Quem traz a vela que simboliza que antes havia as
trevas e depois chegou Jesus é a avó Celeste”, explica Leonor, de nove anos e
olhos azuis expressivos, que é quem acaba por reavivar, a pouco e pouco, a
memória dos irmãos. Sara tem um ano de idade e o João também só tem quatro. É
Mariana, de seis anos, quem recorda as prendas que traz o Natal e alguns
pormenores da consoada. O último cântico antes do jantar... «esse, já somos nós
que escolhemos!», diz, deixando para o irmão Pedro, de oito, a tarefa de
descrever a missa na igreja. «No fim, vamos todos dar um beijinho ao Jesus»,
lembra ele.
Com a ajuda dos pais, Raquel e André Monteiro, as
peças vão encaixando e as descrições acabam por bater certo. É fácil para os
mais pequenos escorregar nalgumas memórias. As festas começam dia 23 de
Dezembro em casa dos avós maternos, com tios e primos, e só terminam a 26, com
uma visita às tias que vivem nas Caldas da Rainha. O tio Manuel veste um
barrete de Pai Natal no primeiro serão, em casa da avó não há árvore, o avô
Cohen tem uma cadela... As festas são todas diferentes. Além disso, para os
irmãos, o Natal é também a antecipação, incluindo atividades como preparar os
enfeites, árvore e o presépio.
Viver o
Natal
Antecipar a chegada do Natal com atividades realizadas
em conjunto e cumprir ou recriar tradições religiosas e familiares é muito
importante para o crescimento dos mais novos. «Estes são momentos de partilha,
de relação, de afeto, e são o que de mais saudável pode existir na relação
entre pais e filhos, pois funcionam como “alimento” para esta relação
permitindo o reforço do simbolismo da quadra e não exclusivamente a parte mais
comercial da época», explica o psicólogo Armando Afonso, do Centro de
Psicologia Aplicada.
Católica praticante, a família Monteiro inicia a
antecipação da celebração quatro semanas antes. «Começamos a montar o presépio
no primeiro domingo do Advento. Pomos o musgo, fazemos os caminhos de areia e
depois, com a ajuda do livro ‘À Espera do Natal’, todos os dias lemos um texto
e vamos acrescentando o presépio», conta o pai. A estrela mostra-se no segundo
dia, os sinos no dia cinco, os reis magos ao décimo e o menino Jesus só surge
mesmo na noite de 24 de dezembro. «Todos os dias fazemos os reis magos andar
mais um bocadinho. E no dia de Natal vimos todos ver se já lá está o menino
Jesus», explicam os miúdos.
Os presentes dos pais, dados na manhã do dia 25, estão
escondidos e obrigam a uma caça ao tesouro, feita com os padrinhos, convidados
a participar. «O convívio com a família alargada (tios, primos, avós) é uma
experiência muito importante para a identificação da criança a uma determinada
dinâmica relacional que se estabelece à volta das memórias que as famílias
possuem, permitindo vivenciar e apreender valores e princípios de conduta»,
lembra Armando Afonso.
Festividades como o Natal são normalmente, na opinião
do especialista, «momentos marcantes no desenvolvimento psicológico dos mais
pequenos», por assumirem um cariz emocional e relacional «que subsiste na
memória ao longo da vida». No caso de famílias religiosas «esta partilha de
experiências reveste-se de um simbolismo que ajuda a criar uma atmosfera
especial, única, que se torna inesquecível e bastante influente no
desenvolvimento infantil», acrescenta o psicólogo. E isto, independentemente da
religião de que se fala.
Natais
cristãos
Isabel Rute Reinaldo frequenta com o marido e os seis
filhos a Igreja Evangélica Baptista de Linda-a-Velha. São protestantes e por
isso, a cada Natal, a árvore enfeitada de luz e cor assume na sala o maior
destaque. «O pinheiro, que não é caduco e está sempre verde, iluminado,
significa a luz que Jesus dá», explica. Mas isso não quer dizer que não haja
presépio lá em casa. Os miúdos já montaram um presépio de papel e já fizeram um
outro de argila. A ideia do presépio «não é a de adorar as figuras - os
evangélicos não veneram figuras - mas mais a de aproveitar a vertente didática
do presépio», explica a mãe.
O propósito repete-se com os calendários do advento.
Cada um dos seis irmãos - Timóteo, Tito, Rebeca, Eunice, Madalena, Pedro e
Sara, que têm entre os dois e os 18 anos - tem o seu calendário. Comem um
chocolate por dia, acompanhando o momento de uma pequena leitura ou cântico - e
há sempre um calendário extra para uma visita que apareça.
«Não gosto muito daqueles chocolates», confessa
Eunice, com 12 anos. No Natal, o que ela aprecia mesmo é enfeitar a árvore e a
porta de casa, participar nos musicais encenados na igreja para a festa do
domingo anterior, ouvir as leituras do evangelho partilhadas à volta da mesa,
interpretar os cânticos com os irmãos e abrir as prendas com os avós.
Os presentes também são um dos pontos altos para a irmã
Madalena, um ano mais nova - os que consegue comprar com a verba que lhe é dada
pelos pais e os que recebe e guarda num saquinho com motivos da quadra
costurado pela avó. Só que, para ela, o Natal também mais do que isso: «é um
momento em que a família vai lá casa e nos divertimos todos muito», explica.
A falta da família alargada é uma das diferenças que
Thimoteia, com 19 anos, aponta entre os natais de infância na Roménia, e os que
agora vive em Portugal. Os pais, Pavel e Laurencia Tienescu, chegaram a
Portugal em 2001 e a família mora na Bobadela com o irmão mais novo.
Teodosie tem oito anos e já está habituado a ver
calhar o Natal num dia normal de escola. A família Tienescu pertence à igreja
ortodoxa - segue o calendário Juliano, criado por Júlio César em 46 A.C. e não
o gregoriano - que marca a sete de Janeiro a chegada do Messias. «Já expliquei
à professora e, às vezes, fico em casa», conta.
O Natal não recebe um destaque por parte da igreja
ortodoxa, que considera a Páscoa a comemoração mais importante. Mas é
assinalado na noite de seis para sete de Janeiro com uma celebração - a que a
família Tienescu assiste numa igreja de Benfica - e com momentos de convívio
familiar que se prolongam pelo dia seguinte. «Preparamos um almoço de Natal e
convidamos os cunhados ou alguns amigos», explica Pavel Tienescu. Na Roménia, o
costume era os miúdos cantarem as janeiras de porta em porta na noite do dia
seis, recebendo doces e guloseimas, e os adultos repetirem a folia pela
madrugada seguinte, entre as casas da família e dos amigos.
Outros
Natais
O Pai Natal chega para Teodosie a 6 de dezembro - é no
Dia de São Nicolau que costuma pôr o sapatinho, receber as prendas e comer as
guloseimas - e acredita que é por 7 de janeiro (no calendário gregoriano) que
se deu o nascimento de Jesus. Mas ele participa nas festas da escola e tal como
a irmã, se quer dar um presente a um amigo, fá-lo ainda em dezembro. Apesar de
viver num país predominantemente católico – 85% dos portugueses seguem uma
matriz católica segundo o último Censos - a discrepância de datas entre o seu
Natal e os dos outros meninos não parece ser um problema para Teodosie.
Os pais podem ajudar os mais novos a compreender e
respeitar as diferenças. A par de princípios como a sinceridade, a honestidade
ou a lealdade, «a tolerância é, por si só, um princípio educacional, que se for
explicado à criança, a tornará um ser mais compreensivo, sensato e que lhe
permitirá enfrentar o mundo real de uma forma mais adequada», diz Armando
Afonso. Como? Incentivando a ideia de «compreender antes de criticar, pensar
antes de se expressar, esclarecendo que não há seres humanos perfeitos e que
cada pessoa pode ter uma visão diferente das coisas, sem ter que ser criticada
por isso», diz o especialista. «Cabe-lhe a ela aceitar outros pontos de vista e
demonstrar os seus, permitindo sempre o diálogo aberto e a busca do crescimento
enquanto pessoa».
As palavras do psicólogo podem ainda parecer
complicadas a Auyshi Samji, que tem 10 anos. Só que a menina de ascendência
indiana e religião hindu convive com uma realidade plural todos os dias. E é
com naturalidade que explica ter dois natais - o Diwali e o Natal cristão - e
comemorar ambos, com o mesmo entusiasmo. «Rezo nos dois deuses. Eu tenho a
minha religião e o meu Deus é o Krishna. Mas Jesus é uma pessoa de bondade, que
quer bem a toda a gente, é um Deus, e eu acredito nele... para mim Jesus Cristo
e Krishna são a mesma coisa. Rezar a um ou a outro é a mesma coisa, desde que
reze nalgum!», explica.
Os pais de Ayushi Samji nasceram em Moçambique,
estudaram na Índia e vivem em Portugal há mais de 20 anos. Ashok e Angena
frequentam o templo hindu do Lumiar com os filhos (Ayushi tem um irmão de 16
anos chamado Akash) e mantêm os hábitos religiosos. De manhã, acordam com uma
oração ao sol, nunca começam a trabalhar ou a estudar sem uma palavra «a nosso
senhor» - «que é a Natureza e o Amor» - «para que todo o trabalho seja justo,
honrado e verdadeiro, que tudo seja positivo nesse dia». E é descalços e
sentados no chão, «com a toda a humildade», que meditam frente aos altares do
templo, onde deixam oferendas de frutos secos ou comida, como manda a tradição.
O Diwali, a festa da luz, que celebra a vitória do bem
sobre o mal e da luz sobre as trevas, não tem data certa. Este ano calhou em outubro.
«Gosto muito das danças do Diwali, fico no templo sempre até tarde nesse dia da
festa e, às vezes, aparece lá um senhor com prendas», conta Ayush.
No dia 24 de dezembro, a noite de consoada da família
Samji segue os preceitos cristãos. «Faço um belíssimo jantar, só que
vegetariano, que nós somos contra a violência e não comemos animais», começa
por explicar Angena. O resto é muito semelhante aos natais da maioria. Na sala,
há uma árvore enfeitada pelos miúdos e um presépio feito a rigor, ora-se em família,
Samji gosta de pôr o sapatinho para receber os presentes e não raras vezes a
família vai a uma igreja católica assistir à missa já no Dia de Natal. «Faço
tudo igual, só não como a hóstia», confirma Ayushi.
Prendas
em excesso
Os miúdos
pedem muito e as famílias dão demais. A queixa não será generalizada, em tempo
de crise, mas é comum a muitos pais portugueses. “A materialização é um
processo, infelizmente em crescimento, e que ganha contornos exagerados nesta”,
comenta o psicólogo Armando Afonso. O excesso de presentes funciona por vezes
como “mecanismo compensatório”, desculpabilizador da falta de tempo da
sociedade. O psicólogo defende “poucos presentes, que tenham significado para a
criança e sejam ajustados à sua idade e muita comunicação, compreensão e afeto,
pois, são esses os pilares de um crescimento psicológico saudável”.
Referências bibliográficas:
- Pais & Filhos. (2013). Um Natal, muitos Natais… Retirado dezembro 17, 2013, de http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-3-aos-5-anos/5713-um-natal-muitos-natais.

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