Mãe, escuta-me…
Confiar na linguagem dos bebés, saber ouvi-los e
respeitá-los enquanto pessoas desde o início é o ponto de partida para cimentar
alicerces e abrir o caminho para a felicidade familiar. Com base em pais
convictos das suas competências e capacidades.
A Sofia ainda não tem uma semana de vida, mas já
conhece bem a voz da mãe. Sabe que é ela que lhe acode quando chora, seja
porque tem fome, a fralda suja ou simplesmente porque não se sente confortável.
Sabe, à sua maneira, transmitir-lhe as suas queixas e a mãe, apesar de
inexperiente, vai sabendo decifrá-las, confiando no “diálogo” e na interação
que estabelecem. Desde que nascem, os bebés conseguem comunicar de forma
eficiente com os pais e cuidadores, mostrando-lhe os seus gostos, preferências
e desagrados. Mas como conseguem os pais de primeira viagem compreender esta
linguagem, que se traduz em choros únicos, bocejos mais ou menos expressivos ou
subtis expressões faciais?
Primeiro que tudo é preciso que os pais estejam
convictos das suas competências e capacidades. Depois, que estejam disponíveis
para alimentar esta relação dinâmica, que não é mais do que uma descoberta
partilhada, essencial para o bom desenvolvimento emocional e social do bebé e
uma oportunidade para traçar o caminho da felicidade. E é aqui, neste momento
inicial de maior vulnerabilidade, quando os pais enfrentam dúvidas, angústias e
receios, que os técnicos de saúde podem desempenhar um papel crucial, norteado
por uma intervenção em prol do bebé e da família. Foi este o tema da conferência
internacional “Valuing baby and family
passion towards a science of happiness” (“Valorar a paixão no bebé e na
família para uma ciência da felicidade”), que trouxe recentemente a Portugal o
pediatra mais famoso do mundo: Berry Brazelton.
Clima devastador
Numa altura em que Portugal atravessa uma crise
profunda, com consequências marcadas no equilíbrio e bem-estar das famílias e
com repercussões importantes na cada vez mais baixa taxa de natalidade, esta
conferência teve como objetivo promover o debate em torno das novas orientações
e linhas de atuação, que têm vindo a incorporar conceitos como o da felicidade
no léxico da pediatria, algo impensável até há pouco tempo. “Temos a terceira
mais baixa taxa europeia de natalidade, uma taxa cada vez menor de casamentos e
uma das taxas emergentes mais altas de divórcios. Tudo isto contribui para um
clima devastador de infelicidade social”, explicou João Gomes-Pedro, pediatra e
coordenador científico da conferência, sublinhando que “faz todo o sentido
termos conseguido alcançar a taxa de mortalidade infantil a que chegámos, mas
está na hora de olharmos para os vivos de outra maneira”. E, neste novo
contexto, o profissional de saúde deve chamar a si uma nova responsabilidade:
“Ser mediador da felicidade entre os bebés e as famílias”. Uma tarefa que pode
ser dificultada pelos obstáculos que as famílias enfrentam nesta altura.
Berry Brazelton não tem dúvidas de que a parentalidade
hoje é diferente e talvez até mais difícil: “Compreendo os tipos de stresse que
os pais sofrem”. Mas também sabe que “conseguir dar resposta a estes fatores
abre caminho à felicidade e permite que os pais se abram para os seus filhos”.
O stresse que as famílias enfrentam “interfere com as
relações e torna mais difícil a compreensão e a empatia com as crianças”. Como
consequência, “o seu desenvolvimento emocional e social é afetado”. Um dos
maiores fatores de stresse da atualidade é “a alteração da estrutura familiar”.
“A monoparentalidade é um desafio que acarreta muito stresse. É preciso apoiar
estes pais, estar lá nos momentos mais complicados”, considera o pediatra, que
apesar dos seus 95 anos continua atento às dificuldades das famílias e a
trabalhar em prol delas. Da mesma forma, a alteração do papel das mulheres na
sociedade também pesa nesta equação: “Oitenta por cento estão no mercado de
trabalho e muitas sentem ‘culpa’ por não estarem em casa a tomar conta da
família”. Outros dos fatores que mais desafiam a parentalidade, na sua opinião,
são “os baixos salários, pouco tempo disponível e a competição entre os
cuidadores e os pais: quando alguém lhes diz ‘Ele nunca faz isso comigo’ está,
na realidade, a dizer ‘Tu não és importante’... Tudo isto é devastador para os
pais e deve ser repensado”.
O caminho para a felicidade
Se os pais não viverem ameaçados e esmagados por todos
estes fatores de stresse vão “apaixonar-se mais facilmente pelos seus bebés”,
que são “transformadores e geradores de felicidade… uma oportunidade para os
pais renascerem”, considera Kevin Nugent, diretor do Instituto Brazelton no
Hospital Pediátrico de Boston, sublinhando que a relação entre os pais e o bebé
é o ponto de partida mais importante para se alcançar a felicidade familiar.
“Todos os pais desejam que os seus filhos sejam felizes. Acreditamos que a
relação inicial entre os pais e o bebé é a fundação para o desenvolvimento do
bem-estar emocional e social e o caminho para a felicidade. Quando os pais
começam a comunicar com os seus bebés e a tentar compreendê-los enquanto
pessoas, desenvolvem sentimentos de afeição mútua e o período a seguir ao parto
é uma oportunidade única para ajudar as famílias, através dos seus bebés, a
encontrar o caminho”, defende Kevin Nugent.
Esta janela de oportunidade integra-se no modelo
desenvolvido por Brazelton, designado por “Touchpoints”, que define momentos
chave na vida do bebé e da criança, nos quais os profissionais de saúde podem
“potenciar a competência parental na construção da relação pais-filhos e criar
uma aliança entre os pais e os profissionais que fazem parte do seu sistema”.
Esta filosofia pretende privilegiar, assumidamente, a relação bebé-família e
apresenta como paradigma o recém-nascido.
“Os pontos de referência são janelas de oportunidade
onde as intervenções dos profissionais podem ter efeitos poderosos e
prolongados. O do recém-nascido é o mais importante”, sublinha Nugent,
explicando que “é um período de grande vulnerabilidade, quer para o bebé quer
para os pais, sobretudo se são pais pela primeira vez.” Para os profissionais
de saúde é “uma oportunidade privilegiada para intervir”. Mas, esclarece, “quem
dita as regras é o bebé: temos que o ouvir porque é ele que nos diz o que
precisa”. Para isso, é preciso “saber descodificar a sua linguagem”. Até
porque, defende Brazelton, “a individualidade do bebé deve ser respeitada desde
o início”.
Atenção aos pormenores
O bebé tem a capacidade de
organizar os seus comportamentos de forma a deixar “transparecer a sua
assinatura”, mostrando-nos, desde o início, quem é, “em toda a sua
individualidade”. Por isso, nesta altura, todos os pormenores são importantes:
“Um tremor, uma mudança na cor, um gesto, tudo é importante para perceber o que
ele é e o que ele prefere… nada pode ser desvalorizado”. Kevin Nugent lembra
que “é preciso que os pais percebam que podem compreender e confiar na
linguagem dos bebés e que devem respeitá-la”. E o que o bebé nos diz, nesta
fase, é essencialmente que tem padrões e que esses padrões devem ser
respeitados: “Se eu estiver a dormir, por favor não me incomodes; se eu estiver
acordado e alerta, brinca comigo, mas tem atenção para não me sobrecarregares
em demasia; se eu chorar, acode-me…”. Os pais devem “confiar no bebé e no que
ele lhes diz”, porque só assim “podem sentir-se seguros e confiantes de que são
bons pais e capazes de fazer os seus filhos felizes”.
Os primeiros três meses de vida
são, neste processo de reconhecimento mútuo, essenciais: “Um bom início é muito
importante para a família”, sublinha Nugent, lembrando que “cada toque que é
respondido, cada choro que é atendido, cada sorriso que é devolvido” cria não
só um “equilíbrio no sistema neurológico” do bebé, como também reforça os
alicerces da relação familiar, cimentada pela confiança mútua. “É com o bebé
que se aprende a ser mãe e pai...”, acrescenta Brazelton, referindo que o papel
dos profissionais de saúde é simplesmente apoiar os pais e ajudá-los a escutar
os seus bebés. “Temos que ouvir os pais para perceber o que eles precisam,
quais os seus receios e frustrações e só depois podemos oferecer ajuda. Temos
de utilizar a linguagem e o comportamento do bebé para chegar até aos pais.”
A metodologia “Touchpoints”
baseia-se no princípio de que as crianças não se desenvolvem de forma linear:
há avanços e regressões e é sobretudo nos momentos de regressão que os
profissionais de saúde podem ajudar. “A nossa intervenção é muito importante
nas alturas em que o bebé não come, não dorme, está irritado… são os momentos
oportunos para alcançar os pais e reforçar a relação com eles, quando se sentem
sozinhos e vulneráveis”, explica Nugent, realçando que “não somos nós que
ensinamos, são os bebés que os guiam. Nós só estamos ali para apoiar, confirmar
e ajudar os pais a desenvolver aquele sentimento de ‘este é o meu bebé e eu sou
capaz de fazer isto’”.
Referências bibliográficas:
- Diogo, T. (2013). Mãe, escuta-me…. Retirado setembro
9, 2013, dehttp://www.paisefilhos.pt/index.php/destaque/6751?start=1
.
Zusana
Matos Diaz (Educadora de Infância de Intervenção Precoce)»»»» 30/09/2013