A amiga chupeta
Feminina ou masculina, com nome ou incógnita,
presa ou solta à roupa, grande ou pequena, de látex ou silicone… As crianças
adoram e os pais descansam. Mas, há muito mais a dizer a dizer sobre a chupeta,
este objeto tão importante na vida dos mais pequenos.
É claramente
enternecedor observar um bebé a chuchar, uma imagem que transmite serenidade e
faz parte do mundo “angelical” dos mais pequenos. Dentro dos parâmetros ditos
habituais, e falando de crianças cognitivamente saudáveis, há sempre um tempo
próprio e único para cada indivíduo dar um novo passo na sua vida. Cada criança
é um caso, cada uma tem direito ao seu próprio desenvolvimento e não são
expectáveis comportamentos iguais e ditos normais. A chucha, o seu uso, as suas
vantagens e desvantagens, também são muitas e encaixam-se em cada criança de
uma maneira exclusiva e especial.
Gabriel tinha
quase três anos e ainda continuava agarrado à sua “Néné” (como chamava à
chucha). Os pais falaram com a pediatra e com a educadora da creche e ambas
insistiram para a retirada da chupeta. Rita, a mãe de Gabriel, tentou explicar
ao filho porque devia largar a chucha, mas ele não entendeu e tão pouco ligou.
Segundo disse na altura a pediatra do Gabriel, não se deve dar muitas
explicações às crianças pois estas ainda não têm maturidade para entender as
consequências do uso da chucha. Como conselho, disse apenas para promover a
separação deste objeto da criança, incentivando-o como um menino corajoso,
grande, e já não um bebé. Aos poucos, os pais do Gabriel conseguiram tirar-lhe
a chucha durante o dia, mas o menino já tinha quatro anos e ainda a usava à
noite. A ajuda da educadora foi essencial, com a história que contou ao Gabriel
(e de que ele, agora com sete anos, ainda se lembra): a história de uma coruja
que apanha as chuchas dos meninos grandes - deixadas nas janelas - para levar
para uma terra onde só existem bebés e, em troca, deixa uma medalha como
agradecimento.
Amuleto indispensável
Esta é apenas uma das muitas situações decorrentes da
retirada da chucha. Porém, com paciência e, por vezes, alguma criatividade,
tudo se consegue. Não há que julgar ou criticar, como também não há quem saiba
o que é mais certo e o que está errado. Cada progenitor tenta, com certeza,
fazer o melhor para o seu filho e manter a harmonia em casa. Mas pais há
muitos: existem os “anti-chucha”, os obsessivos por estas (afinal, este objeto
serve de calmante para toda a família), os “equilibrados” e os que seguem os
livros e as opiniões dos pediatras. É certo que devemos estar atentos às
informações dos especialistas sobre o assunto, mas também há que ter em conta o
ambiente, a criança e o que o nosso coração nos comunica.
“A chucha é um objeto confortante para o
bebé e enquanto feto ele já chucha no dedo (na vida intrauterina). Podemos
dizer que chuchar no polegar ou na chucha é um padrão saudável de auto conforto
que parece ser inato. O recém nascido tem o reflexo de mão na boca”,
explica Paula Garcia, pediatra no Hospital da Luz, em Lisboa. Por isso,
prossegue, “quando está desconfortável ou a tentar sossegar, chucha para se
controlar a si próprio”. E mesmo quando os pais não são apologistas deste
objeto, ou este não existe, é usual a criança arranjar outro “amuleto” para
substituir a chucha. “Costumo dizer que se não têm chucha acabam sempre por
encontrar outros objetos para chuchar, tal como o dedo, uma fralda de pano, um
boneco (que acaba por andar sujo e que a criança não autoriza que seja lavado,
pois tem o sabor e o cheiro que ela procura) ”, diz a especialista.
A pedopsiquiatra Nazaré Santos, por seu turno,
salienta: “A criança está sujeita a pressões internas e externas durante o seu
desenvolvimento que lhe provocam ansiedade. Esta pode ser minimizada com o uso
da chucha, que a conforta e acalma. Quando está a chuchar, o bebé está
sossegado, o que lhe permite aperceber-se do que o rodeia”. Por outro lado, diz
ainda, “colocar objetos (chucha ou brinquedos) na boca é também um meio de
aprender e explorar o seu mundo” e “a utilização da chucha para acalmar o bebé
pode camuflar o motivo real do seu desconforto”.
Usar sem abusar
Segundo a pediatra Paula Garcia, o uso da chupeta não
deve ser imediato: “A sucção na tetina é diferente da que o recém-nascido faz
na mama, pelo que a introdução da chucha só deverá ser feita depois
de o bebé estar bem adaptado à mama”. Já noutros casos, este objeto é de grande
importância logo após o nascimento, concretamente, no caso dos recém-nascidos
prematuros. “Nesta situação, a chucha é muitas vezes utilizada nas técnicas de
estimulação da sucção já que este reflexo só é adquirido nas últimas semanas de
gestação e o prematuro não sabe mamar”. Chuchar faz bem e recomenda-se, contudo
a chupeta não deve fazer parte da criança tal qual oxigénio. Há que haver
ponderação, bom senso e limites. “Muitas vezes, a chucha é mais para
conforto dos pais, funciona como uma rolha que permite que a criança se acalme.
No caso do bebé com cólicas, por exemplo, a sucção na chucha pode aliviar
o mal-estar. E na criança mais velha acaba muitas vezes com a birra”.
São muitas as vantagens deste objeto e não tem,
propriamente, contraindicações. “Claro que não devemos impor o seu uso e a moda
de andar com a chucha pendurada é infeliz porque, mesmo que a criança não se
lembre, ela está sempre à vista e disponível pelo que será usada mais
frequentemente e até mais tarde. E não deixa de ser também muito pouco
higiénico”, denuncia a médica.
Efeitos secundários
Quanto a eventuais efeitos secundários, Paula Garcia
lembra que “alguns estudos relacionam o uso da chucha com a maior incidência de
otites porque a sucção poderá ajudar na passagem de microrganismos da cavidade
oral para o ouvido através da trompa de Eustáquio, que é o canal de ligação”.
Também há alguns estudos, prossegue, “que referem maior incidência de infeções
gastrointestinais” e que “o uso da chucha poderá interferir na fala, não só na
dicção, se for usada até muito tarde, como também na própria relação com os
outros, já que a criança prefere andar com a chupeta e não desenvolve as competências
linguísticas necessárias para comunicar com os ‘amigos’”. Além disso,
acrescenta, “também interfere na dentição e na formação da arcada dentária”,
pelo que, defende, o seu uso deverá ser interrompido entre os 18 meses e os
dois anos. Ou pelo menos reduzido, tentando que seja só para adormecer ou,
eventualmente, para controlar alguma birra”.
Fernando Mesquita Gabriel, odontopediatra,
esclarece-nos sobre as desvantagens que a chucha pode trazer para a boca dos
mais pequenos: “Se as crianças continuarem com a chucha, especialmente após o
nascimento dos dentes definitivos, então os efeitos serão certamente
irreversíveis. A principal consequência desde hábito é em termos de oclusão,
provocando um estreitamento do maxilar superior levando a uma mordida
cruzada posterior e provocando também uma mordida aberta anterior (ou seja os
dentes anteriores e superiores não contactam entre si, o que não é normal)”. Felizmente,
a medicina está avançada e existe tratamento para dentes “mal tratados” por
chuchas. Contudo, há que lembrar que, para além das despesas financeiras serem
grandes, o tratamento implica muita paciência, tanto dos pais como da criança a
fim de seguirem o tratamento com a atenção prevista e os cuidados exigidos. “O
tratamento numa fase inicial é preventivo e intercetivo, ou seja, passa pela
eliminação do uso da chucha, o que pode ser muito difícil de conseguir”, diz,
adiantando: “Podem- se usar várias estratégias e aparelhos para cortar com este
hábito. Se a criança o deixar relativamente cedo, pode dar-se uma correção
espontânea dos problemas oclusais. Se o problema oclusal se mantiver, então a
situação terá que ser resolvida com aparelhos de ortodontia, normalmente a
partir da altura em que já estejam presentes dentes definitivos. Mesmo nesta
altura, é fundamental que a criança já não chuche pois, se houver uma guerra
entre a chucha/dedo e o aparelho, o aparelho perde sempre!”.
Adeus chucha!
A pediatra Paula Garcia destaca a importância do
desapego da chucha por volta dos três anos pois, segundo justifica, as crianças
com necessidade de usá-la como refúgio até muito tarde (idade
escolar), “podem refletir problemas relacionados com a socialização que
terão eventualmente de ser analisados de outra forma”. Além disso, defende, “os
pais não devem incentivar o seu uso reservando-o apenas para situações
críticas”.
Já o odontopediatra dá mais algum “tempo de vida” ao
hábito de chuchar: “A maior parte das crianças deixam de ter estes hábitos por
si próprias. Contudo deverão deixar a chucha o mais cedo possível, geralmente
até aos quatros anos de idade.” E, como chamada de atenção, a pedopsiquiatra
Nazaré Santos realça: “A chucha não deve ser tirada repentinamente pois pode
precipitar ansiedade, mas sim retirada lentamente, ao ritmo da
criança”. A especialista defende ainda que “pode limitar-se o seu uso diário,
substituindo-a gradualmente por um objeto preferido” e que “em situações
de stresse deve ser permitido utilizá-la”.
E qual a melhor? Na opinião da pediatra,
“relativamente ao tipo de chucha, as de silicone são as mais
duradouras e as mais higiénicas. Mesmo que os miúdos prefiram as
de látex, por serem mais maleáveis, é aconselhável o uso das outras”. Na
realidade, “até há bebés que podem ser alérgicos ao látex, pelo que será sempre
preferível as de silicone”. Para garantir que a criança não apanhe doenças pela
falta de higiene da chucha, esta deverá ser mantida limpa. “O que não significa
que tenha de ser esterilizada sempre que cai: basta passar por água quente no
bebé enquanto latente”, conclui.
Chucha reduz a
morte súbita
Desta vez é o
órgão oficial da American Academy of
Pediatrics que o diz. Segundo este, as crianças que usam chupeta durante o
sono reduzem o risco de SIDS (Sudden
Infant Death Syndrome ou “morte súbita”) em 61 por cento em relação às que
não a usam. Isto porque a respiração oral é facilitada em caso de obstrução
nasal, há baixo risco de obstrução orofaríngea pela posição em que a língua se
encontra e, por fim, porque é usual os bebés que usam chupeta acordarem menos
vezes durante o sono.
Vamos largar a
chucha?
Truques para ajudar a
criança
- O dia
do “adeus” deve ser falado e decidido com a criança;
- Nunca se
deve tirar a chupeta a uma criança em alturas de mudança (ex.: nascimento de um
irmão, entrada numa nova escola, divórcio dos pais);
- A
despedida da chucha deve ser feita de forma a fazer a criança sentir-se
generosa ou corajosa. Por exemplo, podem decidir deitar a chucha a um lago com
patos e dizer que estes são os “guardiões das chuchas dos meninos corajosos” ou
colocar num envelope com o intuito de enviar pelo correio, dizendo à criança
que a chucha irá viajar até uma terra muito longe onde há muitos bebés sem
chuchas e a precisar muito;
- Também pode
ser a altura ideal para a “fada das chuchas” entrar em cena. Tal como a dos dentes,
esta pode deixar um presente, durante a noite, à criança que deixa a chucha
debaixo da almofada.
Nota: É
aconselhável que não deite a chucha fora: guarde-a pois pode ser uma boa
recordação ou ser necessária numa eventualidade.
Referências bibliográficas:
- Pais & Filhos. (2013).
A amiga chupeta - amuleto
indispensável. Retirado novembro 24, 2013, de http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-0-aos-2-anos/6766-a-amiga-chupeta?start=1.
Zusana
Matos Diaz (Educadora de Infância de Intervenção Precoce)»»»» 25/11/2013