terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Educadora Infor+





Mãe, tenho medo…

Temem o escuro, os ladrões, os monstros debaixo da cama. Assustam-se com os ruídos fortes e com as ondas do mar. Receiam o primeiro dia de escola. Ter medos e aprender a ultrapassá-los faz parte do crescimento das crianças.

A água do banho não chegava para a assustar. Mas a Francisca nunca gostou do azul profundo das piscinas de férias. E muito menos da altura das ondas do mar. «Não!», repetia a cada tentativa dos pais. Não queria. Tinha medo da água. Chorava assim que os salpicos lhe cobriam as pernas. Entrava em pânico quando sentia a barriga molhada. Aprendeu a fugir das ondas no mesmo ano em que começou a andar. «A Francisca nunca apanhou nenhum susto, mas sempre teve pavor de água», diz a mãe, Inês Almeida Ramos. O colo dos pais amenizava a ansiedade, mas a cintura marcava o limite. «Chorava, dizia que queria sair.». Nunca se aproximou do rebordo da piscina da casa de férias. Na praia da Falésia, no Algarve, onde a família passa um mês inteiro todos os verões, preferia brincar com a areia.

O tempo passou, o medo manteve-se. Só no último Verão, já com três anos feitos, a Francisca começou a aventurar-se. O primo Bernardo, um pouco mais velho, convidava-a, insistia, desafiava-a. E ela deixava-se ir, com a mão bem agarrada ao braço da tia. «Connosco, ela sentia-se mais à-vontade para dizer que tinha medo. Foi com os primos mais velhos que começou a ir. Mas nunca deixava a água subir acima do nível da barriga», conta a mãe.

Com o primeiro passo já dado, Francisca venceu o medo nas visitas da escola às praias da Costa da Caparica. «Ela gosta de ser líder, na escola é mais destemida e até um bocadinho mandona. Estavam lá miúdos mais velhos, não queria mostrar-se assustada», diz a mãe.

Inês está aliviada e entusiasma-se com os progressos da filha. A história de um irmão atirado à piscina em bebé e que se recusou a entrar na água até aos 12 anos vem-lhe várias vezes à memória. «Foi empurrado por outro irmão. Deixou de confiar nas pessoas. Estávamos sempre todos na água e ele nunca vinha. Isso marcou-me um bocado», conta. Por isso, nunca forçou a filha, tentava molhá-la, convidava-a, mas nunca a obrigava.

Medos: inconscientes ou naturais?

«Os medos, quando estão de acordo com a idade, protegem as crianças dos perigos. São uma espécie de anjos da guarda», explica a psicopedagoga Joana Sarmento Moreira. Amiga da mãe da Francisca, foi uma das pessoas que aconselhou Inês a não forçar a filha com os mergulhos. «É muito importante os pais saberem dar tempo aos filhos e perceberem que ter medos faz parte do seu crescimento», diz.

As crianças transportam na sua herança genética medos que as impedem de se sentir atraídas por répteis, de se aventurar no escuro ou se lançar das alturas. E apreendem novos receios com a experiência e a socialização. Registam que o fogo queima quando o calor na mão aumenta, aprendem a não se aproximar do lume ao observar que a mãe também nunca lhe toca. «Se ficam expostas ao perigo, as crianças percebem a sua vulnerabilidade. Mas estão também muito atentas às reações dos pais. Muitas vezes, começam a ter medo, não por um qualquer capricho bizarro, mas porque estão muito alerta para os comportamentos da mãe», diz o psicólogo Eduardo Sá.

Marco tem hoje nove anos e um medo enorme de ladrões que só muito lentamente está a conseguir ultrapassar. Receia estar em casas muito grandes. Teme o que pode estar além de uma porta ou por trás de uma esquina. É assim desde os cinco anos. Marco nunca esqueceu o dia em que dois homens entraram na casa da avó, ao lado da sua, para a roubarem. Foi numa noite de passagem de ano. Os ladrões entraram com o à-vontade de quem sabia que os donos da casa iam todos os fins-de-semana para fora. Mas foram surpreendidos pela presença do casal. «O Marco ouviu os gritos da avó e assistiu a tudo», conta a mãe, que prefere identificar-se apenas com o primeiro nome, Carla.

Da janela, Marco viu o pai e o tio saltarem o muro e desaparecerem atrás dos dois homens pelo terreno que se estende pelas traseiras das vivendas. Dentro de casa, assistiu ao nervosismo das mulheres que ficaram para trás, sem saber o que estava a acontecer. Já pela noite dentro, viu o pai chegar com um olho negro e o tio com sangue na camisa. «Não os conseguiram apanhar. Conversámos com os vizinhos e pusemos uma vedação alta nos quintais. Conversei com ele e expliquei-lhe que assim os ladrões não conseguiam voltar a entrar. Achei que o assunto estava resolvido», conta a mãe. Mas o Marco mudou. Assustava-se com os barulhos à noite. Deixou de querer dormir sozinho. Tinha pesadelos, dizia que via pessoas. «Ele era muito pequeno e eu não tive a noção que todas essas coisas eram medo dos ladrões», conta a mãe.

Foi pela própria mão, anos mais tarde, que o Marco confessou ao papel o que continuava a preocupá-lo. «Sou professora na escola onde ele anda. Há uns tempos, assisti a uma apresentação sobre os medos das crianças numa ação de formação. O psicólogo tinha falado previamente com as professoras. Pediu-lhes que os miúdos escrevessem uma composição sobre o medo. Um dos textos selecionados e lido em voz alta era o do Marco. Ele escreveu: A minha mãe diz para eu não ter medo, mas eu não consigo. Quero dizer que não tenho medo, mas ainda tenho», conta Carla. O alerta estava dado. O resto tem sido fruto de muito trabalho. Marco mudou-se de Odivelas para a Ericeira. Mora numa casa ampla onde consegue ver todas as portas a partir do hall de entrada. Tem um cão no jardim que ladra aos desconhecidos. E até já fica sozinho em casa de vez em quando. A psicóloga da escola tem dado uma ajuda.

Medo do quê?
Os medos infantis assumem formas diferentes, consoante as etapas de crescimento. Mas crescem e desaparecem com a idade:

0-6 meses - Ruídos fortes, sensações de perda de amparo ou desequilíbrio;
7-12 meses - Pessoas estranhas e situações imprevistas;
1 ano - Pessoas que não conhecem, ficar longe dos pais;
2 anos - Ruídos fortes, estar longe dos pais, mudanças do meio envolvente;
3-4 anos - Máscaras, quartos escuros, animais, separarem-se dos pais;
5 anos - Ruídos, afastamento dos pais, feridas (medo de se magoarem), ambientes escuros, animais e pessoas más;
6 anos - Monstros e seres sobrenaturais. Dormirem ou ficarem sozinhos;
7-8 anos - Ficarem sozinhos, fantasmas, notícias que ouvem nos Media. Parecerem ridículos perante outros em determinadas situações;
9-12 anos - As transformações no seu corpo, a morte e os ferimentos corporais. Os exames escolares, as trovoadas, os relâmpagos, os tremores de terra e outras catástrofes naturais.

O medo de ter medo

Janelas, muros, grades e escadas. Os obstáculos eram reais, estavam por toda a parte, cresciam aos olhos da Margarida. Chegaram os 6 anos, a entrada na escola. Os inimigos mantinham-se. Destinaram-lhe uma sala de aula no primeiro andar. Margarida (nome fictício) chegava ao colo dos pais ao cimo das escadas e só em piso firme colocava os pés no chão. «Era um caso muito curioso. Não havia uma razão aparente. A mãe não conseguia explicar o medo das alturas da filha. Desde os 3 anos que era assim, começava a tremer e ficava pálida sempre que se deparava com um degrau, uma elevação», conta Rosália Ferreira, professora do primeiro ciclo do ensino básico. A situação, recorda anos mais tarde, foi um desafio para todos. «Foi feito um trabalho muito giro, que envolveu também os pais, com a ajuda de um psicólogo e um professor de educação física». O medo da Margarida foi contado aos outros colegas. A menina aproveitava o intervalo para fazer exercícios com um banco sueco. Recebia palmas a cada pequena vitória. E, a pouco e pouco, foi perdendo o medo. «A fobia é o medo por antecipação. É o medo de ter medo. E afeta crianças e adultos», garante o psicólogo Eduardo Sá. Os sinais de uma fobia são sobretudo físicos. «As crianças dizem que as pernas tremem, que sentem o coração a bater muito, queixam-se de falta de ar», descreve Rosália Ferreira. Margarida terá sido um caso excecional na sua carreira de docência, mas não o único. «Numa outra escola, tivemos também um miúdo com fobia de animais. O medo era muito real. Ele até dizia que sentia uma pressão no peito», diz. «Quando há uma fobia, a criança evita o confronto com o estímulo desse medo grave. Não consegue enfrentá-lo. Sente dores de barriga, as mãos a suar - aquilo a que os especialistas chamam ‘sintomatização’. Ela não está a mentir. É um medo patológico, paralisante», confirma Joana Sarmento Moreira. As fobias condicionam o comportamento das crianças e, muitas vezes, os pais não conseguem lidar com a situação sozinhos. Quando se veem confrontados com um medo impróprio para a idade, sério e persistente no tempo, é importante que peçam ajuda. Há medos que passam com a idade e não há uma relação direta entre a fobia de um adulto e os receios que sentiu em criança. «Mas um medo mal resolvido pode tornar-se uma fobia grave», alerta a especialista.

Referências bibliográficas:
  • Pais & Filhos. (2013). Mãe - tenho medo... Retirado dezembro 03, 2013, de http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-3-aos-5-anos/5964-mae-tenho-medo.
Zusana Matos Diaz (Educadora de Infância de Intervenção Precoce)»»»» 09/12/2013

Projeto Pedagógico do Berçário & Creche "Tia São"!



Projeto Pedagógico: “Pequenos descobridores, grandes descobertas!”  


O projeto pedagógico intitulado “Pequenos descobridores, grandes descobertas!” da sala arco-íris (Berçário) e da sala sol (Creche) assenta nas Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar (OCEPE). Sabendo que a criança se vai desenvolver na relação consigo própria, com os outros e com o mundo, iremos desenvolver um trabalho centrado no tema das descobertas, de forma que lhes sejam proporcionadas situações de distinção entre o real e o imaginário e suportes que lhes permitam desenvolver a imaginação criadora como procura e descoberta de soluções e exploração de diferentes mundos (OCEPE, 1997).
Pretende-se com este trabalho desenvolver situações de aprendizagem, mas também de aquisição progressivamente mais consistentes, e de uma linguagem que permite, interativamente, a apropriação da descoberta e a explicitação dessa descoberta partilhando-a com os outros. O que se explicita torna-se real. A explicitação da descoberta pela palavra sedimenta as bases de outros saltos para outras descobertas.
Como é referido pelos autores Hohmann e Weikaert (1997), no contexto da aprendizagem ativa, onde a linguagem da criança reflete as suas perceções pessoais e as suas preocupações, a voz de cada criança é atentamente ouvida. Deverá dar-se resposta aos “porquês”, “como”, “onde” e “quando” que afloram constantemente às interpelações das crianças.
Para a criança muito pequena o acesso aos materiais, a liberdade para os manipular, transformar e combinar ao seu desejo e o tempo para o fazer, são aspetos absolutamente essenciais ao processo da descoberta (Hohmann & Weikaert, 1997). É a criação das condições necessárias - materiais, pedagógicas e psicológicas - para esta descoberta, que nos propomos proporcionar às crianças de modo a levar a cabo este projeto pedagógico.
Tendo em consideração a potencial riqueza do desenvolvimento e aprendizagem que este grupo oferece (idades diversificadas e crianças bem estruturadas a nível afetivo e cognitivo), consideramos que seria de aproveitar ao máximo as diversidades do grupo, não reduzindo o processo de aprendizagem a temas únicos e redutores. Assim, optamos por um tema que se vai adequando de um modo flexível e criativo às necessidades do próprio grupo. As crianças, apesar da sua tenra idade, podem ser já agentes e não apenas sujeitos de aprendizagem.
Assim, propomo-nos, centrando-nos no tema da descoberta, proporcionar o prazer de realizar novas experiências, valorizando as descobertas da criança, apoiando a reflexão sobre estas experiências e descobertas, de modo a permitir uma apropriação dos diferentes meios de expressão e comunicação. Este processo implica planear e proporcionar situações de aprendizagem diversificadas e progressivamente mais complexas (OCEPE, 1997).
Irei trabalhar com as crianças, Pequenos descobridores… grandes descobertas!, a partir do EU, dos OUTROS e do MUNDO, abordando assim as diferentes áreas de conteúdo: área de formação pessoal e social, área de expressão e comunicação e área de conhecimento do mundo. 

Educadora de Infância de Intervenção Precoce Zusana Diaz (07-01-2013)