Aquisição e desenvolvimento da linguagem em crianças com 2-3 anos de
idade - parte I
Dos 2 aos 3 anos de idade, a criança apresenta dois momentos distintos,
sendo o primeiro dos 24 aos 30 meses de idade, em que ela generaliza os enunciados
a três palavras e aumenta-os progressivamente; dos 30 aos 36 meses assiste-se a
uma melhoria da sintaxe com o surgimento dos “porquês”. Será, no entanto,
necessário esperar mais seis meses para ouvirmos a produção dos “porquês”.
Segundo os estudos, raros, sobre a aquisição do vocabulário, o nível
semântico enriquece-se diariamente de 5 a 15 palavras novas produzidas, sem
falar de novos conceitos que vão sendo clarificados quotidianamente ao nível da
compreensão. Esta progressão, contínua, permite à criança atingir rapidamente
níveis de expressão interessantes e leva-a a uma certa autonomia na sua relação
com o mundo envolvente e no seu raciocínio cognitivo-linguístico. A criança
torna-se cada vez mais fluente linguisticamente, daí que seja muito importante
a forma como o educador fala com e para a criança. A construção da frase deverá
ser muito correta, sendo fundamental e imprescindível o uso de preposições,
advérbios, adjetivos e tempos dos verbos. O educador deverá ter muito cuidado
com o uso dos verbos de ação. Em vez de “tirar a tampa”, deverá dizer
“desenroscar a tampa”. Nesta linha de ideias, cada educador deverá fazer uma
reflexão profunda sobre a maneira como formula os reforços, devendo dizer:
“Lindo menino! Conseguiste encaixar a peça sozinho!”; “Boa! Lavaste as mãos sem
molhar as mangas!”; “Parabéns! Emprestaste o teu jogo preferido!”. Nestes
casos, o educador expressa sempre a razão do reforço proferido.
O tipo de palavras que a criança desta faixa etária emprega é
principalmente o substantivo; os verbos são empregues em menos de metade dos
casos, segundo pesquisas em psicolinguística (Neves e Cruz, 1992, 1993, 1994).
A criança utiliza ainda poucos advérbios e ainda muito menos adjetivos, o que
significa que o adulto tem um papel importante ao nível semântico-estrutural: o
de reforçar as áreas de aquisição onde a criança é espontaneamente melhor
(substantivos e verbos) e o de estimular as áreas de mais lento
desenvolvimento, e cuja função é precisamente complementar - o embelezar destes
nomes e destes verbos: trata-se dos adjetivos e dos advérbios, respetivamente.
Um outro nível de expressão linguística de progressiva aquisição é o das
palavras funcionais. Nesta faixa etária domina o artigo definido,
particularmente singular (o - a), e começam a surgir pronomes e preposições
(ex. eu quero…). Os pronomes usados
são os pessoais e os possessivos. As outras categorias são inexistentes ou não
significativas. Daí a importante tarefa de ajudar a criança nesta estruturação
específica da sua linguagem: as palavras funcionais são objetos de reflexão
abstrata, porque o seu significado não existe por si só, mas depende da
interpretação que lhe advém do contexto linguístico envolvente, como podemos
verificar no exemplo seguinte: eu
(pronome pessoal) quero…, só se
entende em presença ou sabendo qual a pessoa que substitui na frase, o seu antecedente
(Rigolet, 1995).
Quanto à expressão sintática, a criança desta idade só utiliza as
declarativas afirmativas ou negativas. As outras formas são inexistentes. A interrogativa
é, de facto, uma declarativa afirmativa ou declarativa negativa com uma
entoação a subir, típica da forma de interrogação. Ou seja, a forma linguística
não se altera, é a melodia da voz que marca a diferença entre interrogações e
afirmações nestas idades.
Relativamente ao comprimento médio dos seus enunciados ou pequenas
frases, a criança atinge em média, três palavras.
Os tempos dos verbos utilizados nestes enunciados encontram-se
principalmente no presente, no passado e, por vezes, no futuro (próximo) do
indicativo. Assim: - Eu quero…; - Eu comi…; - Eu vou fazer…
Frequentemente aparecem erros, chamados de “generalizações abusivas”.
Assim, surge com frequência “fazi”, eu “ouvo”, “pinti”. Significa, de facto, que a criança está a elaborar regras
linguísticas que extrai progressivamente do que ouve à sua volta. A criança
aprendeu, em muitos casos, a deduzir que, para conjugar um verbo, extrai-se a
raiz e coloca-se a designação da pessoa. Assim, comer - comi, daí que ao dizer fazer diga “fazi”, que é uma generalização abusiva.
A articulação das crianças dos 2 aos 3 anos de idade já está bastante
clara. No entanto, manifestam alguma dificuldade na produção de certos fonemas
e na articulação de palavras mais compridas ou cujos sons são mais complexos. A
criança esforça-se para articular melhor algumas palavras que são mais
complicadas, tal como televisão, pelo que ao silabar diz “te vi são”.
Fonemas como /j/, /z/, /r/, /rr/, /lh/, …, podem causar problemas por
muito mais tempo. Encontros consonânticos, por ex. /pl/, /br/ e palavras
compridas, tais como: crocodilo, televisão, frigorífico, … provocam
dificuldades de vária ordem e por isso as crianças recorrem a alguns processos
de simplificação. São estes: supressão ou omissão - de um (ou mais) fonema
difícil (ex. “fifico” para dizer fri-go-rí-fi-co);
substituição - do fonema difícil por um mais simples (ex. “tapato” para dizer sapato); inversão - mudança de ordem dos
fonemas (ex. “corcodilo” para dizer
crocodilo, neste caso para evitar um encontro consonântico intra-silábico cr); assimilação - um fonema “tinge” os
outros e influencia o seu emprego exagerado (ex. piquininho).
De notar, ainda que para além das dificuldades de articulação fonética
em si, a criança pode manifestar a produção de um som (fonema) em certo
contexto fonológico e não noutro (ex. sol
- articulado corretamente e “pátaro”
- em vez de pássaro). Por isso, é importante que o educador registe exemplos de
articulação incorreta e verifique se este fonema, colocado noutras posições,
continua ou não a criar dificuldades.
As crianças devem começar por si a substituir os infantilismos pelas
palavras adultas, tal como por ex. carne
em vez de chicha; dormir em vez de nanar, comer em vez de papar, … Neste processo de substituição,
o papel do adulto tem uma grande importância e constitui um meio facilitador.
As crianças desta idade apresentam uma certa disfluência: a criança,
mais particularmente a que se encontra entre os 30 e os 36 meses de idade,
manifesta frequentemente uma “aparente gaguez”, denominada pelos especialistas
de “gaguez fisiológica”. É como se de repente o fluxo de raciocínio fosse tão
rápido que o fluxo da linguagem oral não o conseguisse acompanhar. No entanto,
esta forma característica de expressão tão bem estudada pelos especialistas da
educação não deve ultrapassar os 36 meses de idade sem incorrer no risco de se
tornar crónica, deixando então pressupor a instalação, num prazo bem próximo,
de uma verdadeira gaguez.
Uma aquisição linguística importante surge no fim deste período de vida:
o “porquê”, aparecendo como marco importante de um progresso decisivo ao nível
cognitivo: a descoberta da causalidade finalmente expressa linguisticamente na
sua forma interrogativa.
De facto, será necessário esperar mais seis meses aproximadamente para a
criança exprimir a relação de causa e efeito através da palavra na sua forma
afirmativa: pela conjunção subordinativa “porque”. Sintetizando, podemos dizer
que a criança passa progressivamente pelas quatro fases seguintes: justaposição
da causa e efeito - ex. Trabalhei muito.
Estou cansada. (causa-efeito); Estou
triste. Papá foi-se embora. (efeito-causa); expressão do “porquê” - ex. O passarinho não voa, porquê?;
bombardear de “porquês” cujas respostas pouco interessam, utilizando a expressão
pelo simples prazer de perguntar - ex. Porquê
está assim? (Resposta: O passarinho está morto.); e, por último, surgirá o
“porque”, acontecendo por volta dos 3 anos e meio.
A criança desta faixa etária manifesta dificuldades no “recontar” de uma
história que o educador lhe tenha contado. No entanto, se esta tiver à sua
disposição um suporte visual concreto e claro para a história, poderá expressar
algumas ideias, nomear alguns tópicos. Mas sem imagens, sem ajuda de um suporte
visual, não conseguirá essa tarefa.
Dos 2 aos 3 anos de idade começa a poder memorizar pequenas canções e as
suas letras, se forem simples e se a canção associar ritmos bem marcados e
gestos claros.
A esta mesma criança já se lhe pode exigir pequenas palavras de “boa
educação”, tais como: obrigado(a), por favor, …
Destes progressos importantes, o educador deve tirar proveito e
continuar no seu fundamental papel de agente facilitador deste maravilhoso
desenvolvimento.
A criança começa a usar os pares de contrários - Eu sou bonito e tu és feia!. Daí que seja importante trabalhar os
contrários, os sinónimos, os conjuntos e as famílias de palavras (ex. salada -
saladeira).
O jogo simbólico adquire uma forma muito mais sequenciada e organizada
(ex. para tratar do bebé da sala, tenho primeiro de preparar o biberão, dar o
leite, pôr o bebé a arrotar, mudar-lhe a fralda e só depois pô-lo a dormir).
A criança começa a querer conversar sobre temas que abrangem uma
realidade mais envolvente do que no ano anterior. Os temas familiares (vestuário,
pessoas, animais, alimentos, móveis - a casa familiar) continuam a interessá-la
porque fazem parte das suas vivências diárias e, por isso, diretamente
experimentáveis. Começa a poder sequenciar imagens soltas, criando e
compreendendo pequenas histórias, cuja personagem é imediatamente identificada
com ela própria. Embora o herói representado seja um menino, a menina que “lê”
a história verá nele a sua própria pessoa, atribuindo-lhe as suas
características, as suas experiências, os seus gostos e sentimentos.
Como a criança já começou o seu longo processo de desconcentração, já
manifesta algum interesse para temas que lhe estão menos diretamente ligados,
embora façam parte de um contexto que lhe seja minimamente familiar. Assim, a pequena
já gostará do tema das “lojas”, do “cabeleireiro”, do “médico”, dos “animais
selvagens”, … manifestará espontaneamente vontade de “contar”, de “enumerar”,
de “alinhar” objetos. Poderá, inclusivamente, concentrar-se mais tempo nos
desenhos animados, compreendendo melhor alguma sequência.
Referências bibliográficas
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Sim-sim, Inês; Silva, Ana Cristina & Nunes,
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no Jardim de Infância. Textos de Apoio para Educadores de Infância. Lisboa:
Ministério da Educação.
Zusana Matos Diaz (Educadora de Infância de Intervenção Precoce) »»»» 04/02/2013